Entenda suposto esquema com facções que motivou prisão de advogados em Serrinha

A operação que prendeu 10 advogados e cumpriu mandados de prisão contra 12 detentos, nesta sexta-feira (3), na Bahia, investiga a atuação de grupos envolvidos em diversos crimes ocorridos no estado. Três dos profissionais presos residem e atuam em Serrinha.
Entre as ações listadas, estão tráfico de drogas, aquisição, circulação, posse e guarda de armas de fogo de facções, além da articulação criminosa entre integrantes presos e agentes em liberdade.
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Batizada de Operação Sintonia de Gravata, a ação cumpriu ainda 15 mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Eunápolis, com diligências nos municípios de Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Feira de Santana, Serrinha e Barreiras.
Durante o cumprimento das medidas judiciais, foram apreendidos notebooks, celulares e documentos diversos que poderão contribuir para o aprofundamento das investigações e para a identificação da eventual participação de outros envolvidos.
Conforme a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), foi determinada também a indisponibilidade de ativos financeiros dos investigados, até o limite mínimo de R$ 10 milhões, além do bloqueio de veículos, bens imóveis, embarcações e aeronaves dos investigados, com o objetivo de impedir a movimentação de recursos vinculados às atividades ilícitas.

Comunicação clandestina – A investigação aponta que os defensores atuavam como o "núcleo jurídico" de facções criminosas, utilizando o parlatório do Presídio de Segurança Máxima de Serrinha para transmitir ordens de chefes do tráfico que deveriam estar isolados.
Câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, os profissionais recebendo e transmitindo instruções detalhadas sobre a compra e venda de armamentos, contabilidade do tráfico de drogas, além de planejamentos de homicídios e sequestros. Os bilhetes com as diretrizes das quadrilhas eram escondidos pelos advogados sob as roupas íntimas para burlar a fiscalização.
"Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime", afirmou o coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto. "Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios."
A SSP-BA ainda detalhou que o fluxo de comunicação permitia aos chefes das facções, mesmo presos, participar da gestão do tráfico de drogas, da comercialização de entorpecentes, da aquisição e circulação de armas de fogo, da movimentação de recursos financeiros e da resolução de conflitos internos, evidenciando uma estrutura organizada, hierarquizada e dividida por funções.
O grupo conseguiu contornar mecanismos de isolamento previstos no sistema prisional, mantendo ativa uma rede de transmissão de ordens que contribuiu para a continuidade das práticas criminosas e para o fortalecimento dessas organizações.
As gravações capturadas nas cabines do parlatório revelaram a atuação individualizada de integrantes do grupo:

Ícaro Cardoso Viana: O advogado foi registrado recebendo instruções para recolher duas pistolas com a tia de um criminoso. Em outros trechos, ele faz anotações enquanto um preso dita os preços de substâncias ilícitas utilizando codinomes como "peixe" (cocaína), "óleo" (crack) e "chá" (maconha). As imagens mostram que a contabilidade da quadrilha ainda incluía o uso de cheques bancários.
Segundo a investigação, o advogado atuaria em favor de Gleidson Bomfim do Nascimento, Ademilton Mercês Alves e Décio Douglas Silva Oliveira. Esse último é conhecido como "Vaqueiro", um dos chefes do BDM.

Fernanda Oliveira Borges: Foi filmada retirando papéis com informações de dentro de suas vestes. Os vídeos mostram os detentos ditando balanços financeiros de entorpecentes acompanhados por ela, além de ordens de cobranças de dívidas sob ameaça e anotações ligadas a planejamentos de sequestros.
De acordo com a polícia, ela atuaria em favor de Marlos Araújo Souza Junior, conhecido como "Bolão, CRM, JR". O criminoso é vinculado à organização criminosa Terceiro Comando Puro (TCP), com atuação principal em Senhor do Bonfim.

Maria Mariana Batista de Oliveira: Conforme as investigações, ela mantinha contato frequente com Fabio Santana Oliveira, conhecido como "Panda" e apontado como um dos chefes do CV, com atuação principal na região de Capim Grosso. Em um dos vídeos, ela chora com o preso ao informá-lo sobre a morte de um comparsa que atuava na Bahia e foi morto em confronto com a Polícia Militar no Rio de Janeiro durante a Operação Contenção — a mais letal do país, que deixou 122 mortos em outubro do ano passado. Depois, o detento afirma que pretende matar policiais, enquanto a advogada repassa dados sobre o paradeiro de uma carabina (chamada de "CT") e frações de munição, além de receber instruções sobre como embalar cocaína em pinos plásticos para venda.
Além disso, a advogada também atuaria em favor de José Lucas Silva Rocha, o "Índio", integrante do CV, com atuação na cidade de Eunápolis, no extremo sul; e de Victor de Freitas Silva, o "Da Jega", um dos chefes da facção em Feira de Santana.
O delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, André Viana, explicou que a força-tarefa teve início a partir de ações violentas coordenadas de dentro dos presídios. "Essa investigação ela nasce a partir do atentado na região sul da Bahia, contra a vida do diretor do estabelecimento prisional lá da região de Eunápolis, onde foi possível identificar que um advogado, ele fazia a comunicação entre as lideranças criminosas com os criminosos que estavam soltos, justamente para organizar essa ação", afirmou Viana.

Os relatórios detalham que os advogados prestavam assessoria informal fora dos autos processuais e mantinham os detentos informados sobre o fluxo de caixa das facções. Os presos também utilizavam os profissionais para gerenciar a divulgação de fotos e vídeos promocionais de drogas no status de aplicativos de mensagens para atrair compradores.
Diante do esquema desarticulado, o Ministério Público defendeu a necessidade de uma mudança na legislação estadual para espelhar a regra dos presídios federais, onde o monitoramento audiovisual nos parlatórios é obrigatório desde 2019.
"A gente não pode permitir que as pessoas que estão sob a custódia do Estado, especialmente as lideranças do crime organizado, possam ter um livre contato com o mundo exterior. Não estamos pretendendo a devassa da privacidade e tornar violável tudo que é discutido, que é feito dentro de qualquer parlatório", ponderou o procurador-geral de Justiça do MP-BA, Pedro Maia Souza Marques.
Veja abaixo o que se sabe sobre os outros suspeitos:

Maria Tereza Novaes Martins
Atuaria em favor de Victor de Freitas Silva, conhecido como "Da Jega", uma dos chefes da organização criminosa Comando Vermelho (CV), com atuação em Feira de Santana

Izabela da Silva de Oliveira
Atuaria em favor de Averaldo Ferreira da Silva Filho, conhecido como "Averaldinho". Ele é integrante e um dos chefes da organização criminosa Bonde do Maluco (BDM), com atuação principal na cidade de Salvador.

Luan Mascarenhas de Souza
Atuaria em favor de Francisleno de Jesus Nunes. Os crimes pelos quais ele responde não foram detalhados.

Luã Santos da Costa
Atuaria em favor de Leandro da Conceição Santos Fonseca, conhecido como Léo Gringo, um dos chefes do BDM na Bahia, e de Wesley Willian Alves dos Santos. No caso desse último, não foram detalhados os crimes pelos quais ele responde.

Tamires Felix Alves Silva
Atuaria em favor de Décio Douglas Silva Oliveira, o "Vaqueiro" do BDM.

Raiza Araújo da Silva
Fez a defesa de Ian Pedro Santos, chefia do Comando Vermelho da cidade de Casa Nova.

Joanderson Almeida dos Santos
Também advogado de Leandro da Conceição Santos Fonseca, conhecido como "Léo Gringo".
Prisões mantidas – Cinco advogados tiveram as prisões convertidas em preventivas após audiências de custódia realizadas neste domingo (5), em Salvador. As audiências envolveram Izabela da Silva de Oliveira, Luã Santos da Costa, Maria Mariana Batista de Oliveira, Ícaro Cardoso Viana e Tamires Felix Alves Silva. Com a decisão, os cinco deixaram o Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e foram encaminhados ao sistema prisional.
Ainda não há informações sobre os resultados das audiências de custódias dos outros advogados.

O que diz a OAB – "A OAB Bahia acompanhou, por meio da comissão de direitos e prerrogativas, o cumprimento dos mandados envolvendo advogados durante a operação sintonia de gravata, deflagrada nesta sexta-feira (3).
A atuação da Ordem ocorreu em defesa das prerrogativas profissionais da advocacia, conforme previsto na legislação.
A presidenta da OAB Bahia, Daniela Borges, determinou à procuradoria jurídica da seccional que solicite ao Tribunal de Justiça acesso aos autos do inquérito para acompanhamento do caso.
Após a análise da documentação, o material será encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED) da OAB-BA para adoção das providências cabíveis, inclusive a eventual suspensão preventiva dos advogados envolvidos, nos termos do Estatuto da Advocacia e do Código de Ética e Disciplina.
A OAB-BA informa, ainda, que está prestando o suporte necessário para assegurar que os advogados constituídos pelos investigados tenham acesso aos autos, em observância às prerrogativas da advocacia e às garantias do contraditório e da ampla defesa.
A seccional seguirá acompanhando o caso e adotará as medidas institucionais que se fizerem cabíveis, no âmbito de suas atribuições legais e estatutárias". * Com imagens da TV Globo









