Prisão de advogado do CV em Serrinha foi o estopim da investigação que prendeu outros dez

Uma fuga em massa do Conjunto Penal de Eunápolis, em dezembro de 2024, e um ataque contra o então diretor da unidade, em maio de 2025, foram os episódios que acenderam o alerta do Ministério Público da Bahia e deram origem à investigação que, mais de um ano depois, resultaria na Operação Sintonia de Gravata. Os dois eventos, marcados por forte esquema logístico e uso de armamento pesado por membros do Comando Vermelho (CV), levaram o MPBA a suspeitar de que a facção mantinha um canal de comunicação com o mundo externo mesmo com suas lideranças presas — e que esse canal passava pelas mãos de um advogado.
O nome que primeiro apareceu nas apurações foi o de Heraldo Silva de Souza, preso em julho do ano passado, em Serrinha. A partir daí, com o cruzamento de informações, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) chegaram a outros dez advogados que atuavam como mensageiros do CV e de outras organizações criminosas.
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Segundo consta na denúncia, um relatório de investigação criminal identificou um padrão de visitas de Heraldo às lideranças do CV custodiadas no Conjunto Penal de Serrinha, unidade de segurança máxima do estado, antes e depois dos dois episódios críticos em Eunápolis. A suspeita levou à prisão preventiva dele em 1º de julho de 2025, em operação conjunta entre a Polícia Civil, a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado da Bahia (Seap) e o Gaeco.
A prisão, no entanto, não interrompeu o esquema — apenas trocou quem o operava. De acordo com a denúncia, o espaço deixado por Heraldo dentro da organização criminosa foi rapidamente ocupado por Maria Mariana Batista de Oliveira, que está entre os dez advogados presos na semana passada, na Operação Sintonia de Gravata. A advogada passou a repetir o mesmo padrão de atendimentos, indo diretamente às celas de segurança máxima sob o pretexto de prestar assistência jurídica a supostos clientes que, na prática, eram lideranças da facção.
Foi esse comportamento que motivou o MPBA a pedir e obter autorização judicial para uma medida investigativa mais invasiva: a captação ambiental no parlatório do Conjunto Penal de Serrinha, autorizada e prorrogada por quatro períodos consecutivos entre setembro de 2025 e janeiro de 2026. O objetivo inicial era monitorar apenas a atuação de Maria Mariana e confirmar — ou afastar — as suspeitas que recaíam sobre ela.

De acordo com o MP, o espaço deixado por Heraldo dentro da organização criminosa foi ocupado por Maria Mariana Batista de Oliveira
O resultado da escuta, porém, foi além do previsto. Ao acompanhar os atendimentos, os investigadores descobriram, o que a própria denúncia descreve como "encontro fortuito", que outros advogados frequentavam o mesmo presídio com o mesmo expediente: usar a prerrogativa de visita reservada para transmitir ordens, negociar dívidas de tráfico, organizar a logística de armas e drogas e até intermediar sucessões de comando dentro de diferentes facções, não apenas do Comando Vermelho, mas também do Bonde do Maluco (BDM) e do Terceiro Comando Puro (TCP).
Esse efeito cascata — de um único advogado sob suspeita para uma rede de dez profissionais identificados — é o que sustenta, segundo o Ministério Público, a tese de que não se tratava de casos isolados, mas de uma estrutura consolidada de apoio jurídico às organizações criminosas dentro do sistema prisional baiano.
Mandados de prisão - Ao todo, dez advogados foram presos nesta sexta-feira (3). Durante o cumprimento dos mandados, policiais apreenderam celulares, notebooks e diversos documentos que serão analisados para identificar outros possíveis envolvidos no esquema. A Justiça também determinou o bloqueio de ativos financeiros dos investigados, até o limite de R$ 10 milhões, além da indisponibilidade de veículos, imóveis, embarcações e aeronaves.
Além de Maria Mariana Batista de Oliveira, a lista inclui os advogados Luan Mascarenhas de Souza, Ícaro Cardoso Viana, Izabela da Silva de Oliveira, Maria Tereza Novaes Martins, Tamires Felix Alves Silva, Luã Santos da Costa, Raiza Araújo da Silva, Joanderson Almeida dos Santos e Fernanda Oliveira Borges, apontada como a primeira advogada trans da Bahia.
A operação cumpriu também mandados contra detentos apontados como líderes dos grupos investigados. No total, a Justiça expediu 22 mandados de prisão preventiva, sendo dez contra advogados e outros contra integrantes de facções já custodiados no sistema prisional. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Salvador, Feira de Santana, Barreiras, Serrinha, Lauro de Freitas e Camaçari.









